Leio que uma dessas celebridades de meia-caca, muito representativa dos tempos que correm, a cantora Dua Lipa, abriu uma secção de livros “proibidos e censurados”, que “desafiam o poder e a narrativa dominante” num projeto colaborativo com a livraria Lello.
Com curiosidade, fui ver que “livros proibidos que desafiam a narrativa dominante” seriam esses...
E, conforme esperado, é toda uma parafernália de obras promovidas e disponíveis em qualquer livraria do Ocidente e que abordam um conjunto de narrativas politicamente predominantes: desde as ficções feministas de Margaret Atwood (tão “desafiadora do poder” que até tem séries de televisão baseadas nas suas fantasias), passando pelos títulos de Alice Walker (com os seus feminismos racializados), de Ocean Vuong (com as suas narrativas LGBT), de Trevor Noah (com a sua crítica ao apartheid) e todo um restante acervo dedicado primordialmente a temas de ideologia de género, sexualidades alternativas, racismos sistémicos e novas vagas feministas.
O libelo de “livros censurados” que “desafiam o poder” é risível e constitui obviamente uma operação de marketing comercial dirigida aos imbecis.
Por “censurados”, entendem-se ali livros que foram removidos de alguns currículos ou bibliotecas escolares dos EUA, por serem considerados inapropriados para a idade a que se destinavam ou excessivamente politizados para ambientes escolares, bem como obras banidas em regimes iliberais não-ocidentais que não toleram a propagação das taras sociais e sexuais que são o âmago da maior parte daquelas produções.
O facto é que aquele género de livros está disponível aos magotes nos escaparates de qualquer livraria ocidental, e geralmente em lugar de destaque. São precisamente as obras que certos meios culturais dominantes mais difundem.
Aliás, no Ocidente, falar de “livros censurados” exige uma contextualização prévia, pois são raras as proibições jurídicas de venda ao público e, na era digital, mesmo os títulos desaparecidos dos escaparates de livrarias físicas podem, regra geral, ser encontrados online com maior ou menos esforço.
Um livro proibido que desafia a narrativa dominante não é aquele que é retirado de um currículo escolar dirigido a alunos de 13 anos e que pode depois ser comprado na livraria que fica ao lado da escola…
São obras que não são reeditadas, não são traduzidas, não são publicáveis, não se encontram expostas nas prateleiras das livrarias convencionais ou cuja narrativa é proibida (nalguns casos até criminalizada) pelo regime.
A lista desses títulos daria em si mesmo um livro, mas quase todos se situam nos antípodas ideológicos daquilo que a Dua Lipa e a Lello, com o favor da casta mediática, promovem e cujas adaptações e variações até se multiplicam em séries e filmes nas plataformas de streaming.
Livros banidos seriam, para dar apenas meia-dúzia de exemplos de centenas de outros possíveis: Der Mythus des zwanzigsten Jahrhunderts (O Mito do Século XX, Alfred Rosenberg) ou o Gott und Volk (Deus e Povo, Hans Blöthner), ambos de cariz ideológico; de revisionismo histórico teríamos casos como The Hoax of the Twentieth Century (Arthur Butz) ou Nuremberg ou la Terre Promise (Maurice Bardèche); e nos romances teríamos épicos como Die Geächteten (Os Proscritos, Ernst von Salomon) ou Mourir à Berlin (Morrer em Berlim, Jean Mabire).
Vivemos num circo global repleto de palhaços convencidos da sua própria seriedade, onde os conceitos são subvertidos e a linguagem é manipulada para criar realidades alternativas que contrariam a verdade objetiva. Este é só mais um caso.
Texto de Rodrigo Penedo