Eu estava refletindo sobre gostar de alguém, mais especificamente sobre o próprio sentimento. Sou homem e, por ter tido uma vivência difícil, esse negócio de gostar de alguém sempre foi algo muito complicado para mim, ainda mais atualmente, quando costumo racionalizar as emoções.
Com o passar do tempo, convivi com mulheres ao meu redor que já namoraram os mais diversos tipos de homens. Não estou falando de um ou dois relacionamentos, mas de vários. Eu via todo aquele discurso de que o homem tinha que ser assim ou assado, que determinadas características eram indispensáveis para despertar interesse. Mas, na prática, isso parecia fazer muito menos diferença do que eu imaginava. O que realmente importava era o que elas sentiam. Mesmo quando os homens de quem gostavam eram problemáticos, elas simplesmente gostavam deles, e pronto.
Isso me levou a questionar uma ideia muito comum: a de que existe uma forma correta de fazer alguém gostar de você. Ao longo da vida, também vivi situações que reforçaram essa dúvida. Houve momentos em que demonstrei atenção, cuidado, apoio, disponibilidade e procurei ser alguém presente, acreditando que isso fortaleceria a conexão entre nós. Em outras ocasiões, deixei de agir dessa forma ou simplesmente me afastei. Curiosamente, essas mudanças alteraram a dinâmica da relação, aproximaram ou afastaram pessoas, mas nunca pareceram produzir o sentimento em si. Foi aí que comecei a perceber uma diferença importante: comportamentos podem influenciar uma relação, mas não parecem ser capazes de fabricar um sentimento.
Como costumo racionalizar as emoções, passei muito tempo tentando entender esse fenômeno. Procurei respostas em Freud, na Análise do Comportamento, na Terapia Cognitivo-Comportamental, em conceitos como o complexo de Édipo, nos mecanismos de reforçamento, na influência da infância, do ambiente e em diversas outras teorias. Todas elas possuem fundamentos e ajudam a compreender aspectos importantes do comportamento humano. Elas explicam como nossas experiências, nossa personalidade, nossa criação e o ambiente em que vivemos influenciam a forma como nos relacionamos e até mesmo as pessoas pelas quais tendemos a sentir atração.
No entanto, quanto mais refletia sobre isso, mais percebia que essas teorias pareciam explicar muito mais tudo o que envolve o surgimento do sentimento do que o próprio sentimento. Elas ajudam a compreender as condições, os processos e as influências que tornam o amor possível, mas não conseguem reduzir o sentimento a uma única explicação. Entre todas essas variáveis, ainda existe o momento em que alguém simplesmente passa a gostar de outra pessoa.
Essa percepção também me fez enxergar de forma diferente a ideia de conexão entre duas pessoas. Passei a acreditar que certas coisas podem favorecer o surgimento de um vínculo: a convivência, a proximidade, a compatibilidade, a química, os interesses em comum, a forma de tratar o outro e até o momento de vida em que duas pessoas se encontram. Tudo isso pode criar um ambiente propício para que um sentimento apareça. No entanto, nenhuma dessas coisas parece ser suficiente para determiná-lo. É possível existir química sem que exista interesse romântico. É possível existir carinho sem amor. É possível existir compatibilidade sem atração. Da mesma forma, pessoas completamente improváveis acabam se apaixonando. Quanto mais observo essas situações, mais tenho a impressão de que essas variáveis explicam as possibilidades do amor, mas não conseguem explicar completamente o próprio amor.
Foi então que comecei a enxergá-lo de uma forma diferente. O sentimento, por si só, me parece extremamente simples. Quando ele existe, simplesmente existe. Não parece surgir porque alguém tomou a decisão certa, fez o gesto perfeito ou desenvolveu uma estratégia capaz de despertá-lo. Ao mesmo tempo, tudo aquilo que participa do seu surgimento é extraordinariamente complexo. A personalidade de cada indivíduo, a infância, a forma como foi criado, as experiências acumuladas, os reforços comportamentais, a cultura, o ambiente, os valores, a maneira como cada pessoa interpreta o mundo e até o encontro entre duas histórias de vida parecem se entrelaçar de uma forma impossível de separar completamente.
Talvez seja justamente essa combinação que torne o amor tão difícil de compreender. O sentimento pode ser simples, mas as relações que o cercam não são. Cada fator influencia os demais, formando uma rede tão complexa que qualquer teoria, por mais consistente que seja, consegue explicar apenas parte desse processo. Não porque essas teorias estejam erradas, mas porque cada uma ilumina um aspecto diferente de um fenômeno muito maior.
Hoje, a conclusão a que chego é que o amor talvez seja um dos poucos fenômenos humanos capazes de ser, ao mesmo tempo, extremamente simples e extraordinariamente complexo. Simples naquilo que sentimos, mas complexo em tudo aquilo que faz esse sentimento existir. Talvez por isso nunca exista uma fórmula para fazer alguém amar outra pessoa. Podemos favorecer encontros, construir vínculos, cultivar a convivência, demonstrar carinho e criar oportunidades para que uma conexão aconteça. Mas o sentimento em si não pode ser produzido deliberadamente. Ele apenas pode surgir.
E talvez seja justamente aí que esteja a natureza do amor: não na simplicidade de existir, nem na complexidade de ser explicado, mas no paradoxo de nascer de uma realidade extraordinariamente complexa e, ainda assim, manifestar-se da forma mais simples possível.