O silêncio gera confusão, ele é mal interpretado pela sociedade. Ele não é sinônimo de algo ruim, até porque o silêncio esta presente em todo ambiente a nossa volta, esta presente deste o início de tudo. Dependendo do pensamento de um indivíduo, o silêncio pode ser visto como tristeza ou frustração, porém existe muito mais dentro desse conceito. O silêncio é subjetivo, às vezes pode ser uma fuga de tudo e todos, uma forma de buscar paz e outras vezes é possível que o indivíduo apenas tem certa dificuldade em se expressar com as palavras. Independente de tudo, o silêncio tem que ser visto como o oposto da expressão, algo que não pode ser demonizado, uma vez que desde os primórdios da raça humana, precisávamos nos expressar e se comunicar para garantir a sobrevivência das comunidades. Nós dias contemporâneos perdemos essa necessidade extrema de socialização, podemos viver sem dizer uma palavra a outras pessoas. Porém algo que antes era por pura sobrevivência, mudou o sentido nos dias atuais, a comunicação passou de ser uma forma de continuar vivo para um meio de conseguir afeto e atenção, necessidade quase biológica do ser humano. Por isso o silêncio é tratado dessa forma, uma vez que perdemos a necessidade de atenção, não precisamos mais nos expressar em grande escala.
O silêncio pode ser tanto algo biológico - não necessariamente um indivíduo que tem dificuldade em se comunicar, não quer fazer tal ato para ter aprovação - como uma resposta a meios externos, como atitudes ou falas de outras pessoas. A partir do momento que uma pessoa escolhe o silêncio, ela abdica da aprovação das outras pessoas, ela prioriza ter sua própria aprovação, garantindo que não tenha que depender de meios externos para se sentir bem. Isso é um tipo de silêncio que traz paz ao indivíduo, sob uma perspectiva de fora, esse silêncio pode ser considerado exclusão ou até aceitação de fatos que inferiorizam sua pessoa, porém a percepção de quem escolhe esse silêncio é outra, tendo em vista que ela gera sua própria aprovação. Refletindo por outra visão, o silêncio biológico pode ser mais problemático, um indivíduo que não escolhe o silêncio e é forçado a ele pode ter muitos problemas. Sendo que, ele foi "privado" da expressão e não consegue comunicar suas angústias, nesse caso, o indivíduo carrega a dor de conviver com seus problemas e não consegue pedir ajuda ou orientação - não que seja necessário, mas o saber de que pode contar com alguém alivia essas angústias - e isso pode derivar em outros problemas. A questão é que o silêncio pode ser tanto uma resposta natural do seu organismo como uma escolha individual afim de buscar paz nas relações interpessoais - pode ser também um meio de buscar a atenção de pessoas, sendo um meio para suprir a carência que o indivíduo tem em afeto. Também pode ser uma forma de manipular e controlar situações, sendo uma tática passivo-agressiva.
Segundo o pensamento de Byung-Chul Han, filosófo sul-coreano, o silêncio é uma forma de resistência contra o pensamento atual, ele representa um espaço de rexonexão e auto conhecimento capaz de ir contra pensamentos de hiperprodutividade. Nesse cenário, sempre estar ocupado e sobrecarregado é sinônimo de produtividade e valor, algo que desgasta mentalmente e fisicamente o indivíduo, por isso o silêncio entra como uma forma de romper esse ciclo. Na sociedade atual, exaltamos essa forma de desgaste como algo normal, sendo possível até perceber formas de exercer poder sob as massas. Esse poder foi criado pela própria sociedade perante uma visão capitalista - onde essa ideologia amplia o pensamento de hiperprodutividade citado antes. Um mundo onde quanto mais você trabalha mais valor você tem é algo incorreto, o valor de uma pessoa não deveria ser medido pela ausência de paz e silêncio. Afinal as pessoas buscam ser valorizadas dessa forma por aprovação social, sendo o trabalho desgastante uma forma de se sentir bem. Byung-Chul Han é cirúrgico nesse pensamento, de forma que o mesmo atua plenamente nos dias contemporâneos, é essencial para entender que as vezes a falta de silêncio pode ser o problema e não o silêncio em si.
Enquanto Byung-Chul Han vê o silêncio como resposta a um sistema externo, Heidegger o situa dentro da própria estrutura da linguagem. Ele acreditava que o silêncio é uma dimensão fundamental e autêntica da própria linguagem e do modo de ser humano no mundo. Visto que, para silenciar, é preciso ter oque dizer, alguém que é incapaz de falar não esta em silêncio no sentido existencial, apenas não emite som. Ou seja, silêncio é um vetor da fala e o silêncio autêntico só é possível para alguem que domina a linguagem. Essa ótica também trata o tema com uma perspectiva de escuta, Heidegger acreditava que para que exista uma escuta verdadeira, o ser humano precisa ser capaz de silenciar, uma vez que nossa mente esta cheia de ruído e palavras prontas. Por isso nao conseguimos escutar o outro e nem a nós mesmos, ademais o silêncio cria o espaço necessário para a contemplação e o pensamento genuíno. Coisa que é rara na contemporaneidade, pois estamos sendo constantemente consumindo opiniões e pensamentos alheios. Nesse sentido, tanto Heidegger como Byung-Chul Han, tentam resgatar algo que a vida contemporânea nos rouba, seja o descanso ou a escuta autêntica.
Tendo essa perspectiva filosófica tanto social como individual, é possível perceber duas propriedades do silêncio, solidão e a solitude. São dois conceitos analisados nos estudos da mentes, mas que estão intrínsecos dentro de debates filosóficos. A solidão é o sentimento de alguem solitário, ela traz angústia paraa quem queria apenas se comunicar e se relacionar. A solidão é uma propriedade do silêncio, pois acaba que um indivíduo nesse estado não consegue se comunicar, optando pelo silêncio. Às vezes, o indivíduo esta rodeado de pessoas, porém esse sentimento ainda esta ligado a ele. É uma sensação de vazio e descolamento social, além de múltiplos outras características. Esse vazio se intensifica na era digital, no Paradoxo Moderno, nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão a sós. A tecnologia alterou profundamente a dinâmica das relações interpessoais, ter centenas de seguidores ou trocar mensagens diariamente gera uma ilusão de presença. Nas redes sociais, vemos apenas o melhor dos outros e isso gera o sentimento de que tudo é perfeito e feliz, menos o próprio indivíduo, amplificando o isolamento. Em contrapartida, se a solidão é caracterizada pelo vazio, a solitude é plenitude. A solitude é o sentimento de amar estar sozinho, amar sua própria presença, algo que se torna difícil quando a pessoa carrega feridas ainda não encaradas. Uma das maiores armadilhas das relações é a dependência funcional: buscar no outro preenchimento de buracos que nós mesmos não conseguimos encarar. Quando uma pessoa aprende a gostar de estar só, ela deixa de aceitar qualquer companhia por mero desespero ou medo do silêncio. Isso fortalece o amor-próprio porque muda a dinâmica das relações. Assim, a solidão é o silêncio que aprisiona, enquanto a solitude é o silêncio que liberta.
Em suma, não deveriamos temer o silêncio, é um conceito que está aplicado em toda a matéria em nossa volta. O silêncio sempre estará presente em nossas vidas, desde de fetos em gestação até a paz de nossas mortes. Por isso o silêncio não pode ser mal interpretado, é algo marcado até em nossa linguagem, assim como Heidegger afirmava. Além disso, as várias naturezas do silêncio precisam ser entendidas e respeitadas, para assim, ser usadas como uma forma de se expressar. Ademais, os vários pensamentos que estudam esse conceitos, devem ser refletidos e aplicados no cotidiano. Como uma forma de ramificação da comunicação, o silêncio abriga muito do que não é dito do pensamento. Porém, é preciso tomar cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais e, cuidado com uma vida desocupada demais. Talvez a verdadeira sabedoria não esteja em fugir do silêncio, como a morte por exemplo, mas sim entendê-lo e usá-lo a nosso favor.
O silêncio é uma força esmagadora, pode aprisionar, angustiar e moldar. Em contrapartida, é um abismo que se entendido, pode trazer paz e autoconhecimento em meio a tanta agitação do cotidiano moderno.