06 maio 2026 - Até a chuvarada do último final de semana, a água abastecida nas torneiras do apartamento em Porto Alegre tinha cheiro e gosto de terra.
Pela manhã, o filtro de proteção física entrega água límpida pro jarro, que a transfere para a chaleira elétrica no início do preparo do café. Ainda meio tonto do sono, sou lembrado de que a água está com um gosto merda quando o ruído do borbulhar começa — fica pior quando esquenta. Não tenho um paladar tão apurado pra me importar depois que o café já foi passado, então, vida que segue. "Não dá. Eu to tomando pouquíssima água porque o gosto tá horrível", a Gabi disse um dia antes de trazer galões de água mineral. Foi o que bebemos por alguns dias. Então, veio chuva — muita chuva. E, hoje, eu já não senti o cheiro de terra.
Na sexta, tomamos uma sopa enquanto o temporal vertia do lado de fora da cabana. Eu pensava sobre o nosso açude, que até a vinda anterior estava mais de metro abaixo do nível de transbordo controlado. Em dezembro, havia esse constante fluxo terreno abaixo, mas no fim de janeiro a fonte secou e a água só diminuiu. A última imagem que eu tinha era da metade do fundo com a terra argilosa exposta. "Nenhum peixe deve sobreviver a isso", pensei. No sábado, já sem chuva, visitei o açude e mal pude crer que ele havia elevado a dois terços da capacidade. Mais uma chuva dessas e deve começar o transbordo novamente.
Em maio de 2024, há dois anos, eu e todos ao meu redor vivenciavam o surreal. O segundo surreal da década — seguido à pandemia de Covid-19. O estado do Rio Grande do Sul era afetado por mais de um terço do volume anual de chuvas em 11 dias, com algumas regiões acumulando 700mm no período. Mais de 400 mil pessoas precisaram deixar suas casas e cidades inteiras foram destruídas pelos rios que subiram dezenas de metros em alguns lugares. A capital Porto Alegre teve suas barreiras de contenção vencidas e o Guaíba que a contorna ao Norte e Oeste atingiu 5,33m, superando a maior enchente registrada, de 4,76m em 1941, e entrando quilômetros para dentro da cidade, com comércios, casas e prédios ficando inundados até metade ou mais do andar térreo. O impacto foi sistêmico, difícil de resumir. Estradas foram destruídas, impedindo acesso a muitas cidades. O abastecimento de alimentos e água potável foi feito de helicóptero em diversas regiões.
Nós estávamos há quase uma semana sem água no prédio onde morávamos. Em uma ida ao mercado pra buscar mais galões de água mineral, encontramos o corredor vazio, exceto por pacotes de água com gás de 500ml. Eu não gostava de água com gás até aquele dia.
O evento das chuvas de 2024 não foi isolado. Em setembro de 2023, um ciclone extratropical gerou uma inundação repentina no Vale do Taquari, que pegou de surpresa milhares de pessoas e devastou cidades ribeirinhas como Muçum e Roca Sales. Mais de 50 pessoas foram mortas. Em novembro, chuvas intensas causaram uma enchente no Guaíba que inundou parte do Cais Mauá e alguns pontos mais baixos da cidade. Eram prelúdios sinistros ao que viria em 2024.
Esse contínuo de chuva excessiva ocorreu sob uma condição climática específica: El Niño — águas aquecidas acima da média no oceano Pacífico. O efeito desse fenômeno é variado por região, mas a regra histórica é de aumento do regime de chuvas no RS. De setembro a novembro de 2023, o fenômeno atingiu o pico de intensidade, com anomalia de +2 a +2,4 ºC, enquanto a temperatura média do planeta marcava uma nova alta pontual histórica de 1,82ºC acima da média do período pré-industrial.
Em maio de 2024, o El Niño já enfraquecia em transição a neutralidade, mas o efeito de aquecimento da atmosfera contribuiu para o ano mais quente superando 1,55°C acima da era pré-industrial de forma sustentada durante todo o ano. Outro fator que contribuiu para o estacionamento da frente fria sobre o RS na época foi o aquecimento anômalo do oceano Atlântico Sul. O ar polar não conseguia avançar no continente, mantendo uma bolha de calor sobre o centro do país e a zona de conflito térmico estacionada no RS.
Algo me fez acordar agoniado. Queria ter alguma notícia do mundo, algo que me dissesse que o fim chegou, ou que temos alguns anos pela frente ainda. Quando a água ferveu e não senti cheiro de terra, fiquei feliz – conectei o enchimento do açude com o fim do gosto ruim. A chuva tinha sido forte, mas deve marcar o retorno da vertente no sítio. Será uma água útil para irrigação, se eu conseguir organizar isso.
O cheiro do café passado encheu a sala. A agonia voltou. Em silêncio, abri o YouTube no celular. Um vídeo gringo foi recomendado pelo algoritmo, que me conhece e sabe que estou acompanhando a metereologia, onde o metereologista analisava os dados mais recentes sobre o El Niño em formação. Após um final de 2024 e ano de 2025 de La Niña, fenômeno de efeito oposto no RS, a expectativa é do El Niño. Nos últimos dias, a terminologia começou a ficar mais sombria, e o vídeo trazia os dados de piora do prognóstico.
Existe certeza de um El Niño para maio/junho de 2026 que se estenda até pelo menos o segundo trimestre de 2027. O aquecimento da região Niño 3.4 (Pacífico Centro-Leste) teve a projeção de atingir valores médios de +2,8ºC no auge (entre setembro e fevereiro) pela rodada de avaliação emitida em 1º de abril deste ano pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo. Agora em 1º de maio, uma nova rodada de avaliação aumentou a previsão para +3,2ºC. Caso isso se concretize, este será possivelmente o Super El Niño mais intenso já registrado em mais de 150 anos de dados.(*)
Do outro lado do continente, o oceano Atlântico próximo à costa do RS já apresenta +1,5 a +2ºC de anomalia na temperatura superficial da água, sendo o abril mais quente registrado (dados da janela climatológica com início em 1993). O cenário se desenvolve morbidamente parecido – e até agora mais agressivo – que o de 2023/2024.
Não assisti o vídeo até o final antes da Gabi chegar para o café. Logo estaria arrumando a mochila para ir ao escritório. "Teremos condições de ir pro escritório no fim do ano?", me perguntei em pensamento. Eu ainda tenho vários riscos não mitigados, mas, ao menos, se faltar água no mercado, o poço do sítio deve ser capaz de nos sustentar.
(*) Na ponta inicial desses 150 anos está a Grande Seca de 1877 devido ao El Niño mais forte que se tem (algum) registro.
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Compartilhando aqui pra dizer que previsto já tava, e que o avanço da temperatura registrada foi mais acentuado que o previsto. Se organizem com familiares, amigos, colegas de trabalho; façam o que estiver a disposição para sair de lugares de risco ou ter um plano de ação pra quando o risco ficar crítico.
Texto publicado em 06 maio 2026